Que diz a Bíblia?

Version imprimable PDF version Partager sur Twitter Partager sur Facebook

 

A Bíblia apresenta-nos a história da caminhada de um povo, Israel, à luz de Deus.  Só pouco a pouco é que Israel descobriu as exigências da Lei dada por Deus a Moisés.

O mesmo se passa com o casamento.  O homem só pôde descobrir as exigências de um amor verdadeiro através de erros e fracassos.  A Bíblia faz-nos descobrir essa trajetória.  A sua mensagem apresenta-se como uma Boa Notícia descoberta,  pouco a pouco, que vem responder às aspirações mais profundas do coração dos homens e das mulheres.  Essa mensagem mostra-nos o sentido do casal e do casamento.

Costumes violentos

Quando os primeiros livros da Bíblia foram escritos (cerca de 1000 anos antes de Cristo), o respeito pela pessoa e pela vida não era generalizado.  Algumas civilizações praticavam ainda o sacrifício humano.  Assim, no Antigo Testamento, são-nos apresentados muitas vezes costumes violentos.

Trata-se de abuso sexual.  A mulher, numa civilização patriarcal, é uma moeda de troca.  É vista como um objeto sexual ao serviço do prazer do homem ou como necessária para gerar uma descendência masculina.  Na Bíblia, a mulher é honrada quando tem muitos filhos.  É desprezada se é estéril.

A Lei de Deus vai tentar humanizar esta situação.

Deus libertou o seu povo da escravidão dos egípcios.  Ao dar-lhe a sua Lei no Monte Sinai, dá-lhe poder para se libertar da sua violência interior, do seu pecado.  Convida-o a adotar uma conduta tal que inspirará a vida social dos outros povos, que louvarão a sabedoria de Israel.

A Lei de Deus contesta tudo o que ameaça e destrói a vida dos homens.  Condena o que destrói o casal:tomar a mulher do outro, cometendo adultério; envolver a vida de um terceiro por vínculos sexuais não duradouros, minam as relações sociais e retiram-lhe estabilidade e equilíbrio.  A Lei de Deus tem em vista que a vida conjugal e sexual seja vivida de forma verdadeiramente humana, de forma verdadeiramente digna de um homem e de uma mulher.

A ternura do casal na Bíblia

Estes costumes violentos, trazidos pela Lei, não impedem os casais da Bíblia de viver na ternura e no amor autêntico.

Jacob une-se particularmente a Raquel, que, no entanto, é estéril (Gn 29).  Elcana consola a mulher que não pode ter filhos, dizendo-lhe:  Não valho para ti tanto como dez filhos? (1 Sm 1,18).  O Livro de Judite e os escritos sapienciais apresentam um ideal conjugal que ultrapassa o que a Lei prescrevia.

Insiste-se aí na fidelidade do casal.  Fidelidade alicerçada no amor e na ternura.  Fidelidade para com o amor da juventude.  Fidelidade que pode durar para além da morte.  A mulher pode realmente ser a companheira do seu marido.

O Cântico dos Cânticos descreve a ternura de dois amantes, exprimindo-se na linguagem dos corpos.  A piedade judaica vai considerar o casamento como uma realidade santa.  O Livro de Tobias manifesta esse ideal e o sentido espiritual:  a união do marido e da mulher na ternura, o amor e a fidelidade e a alegria de serem pais de numerosos filhos.

O homem e a mulher, uma só carne

A reflexão de Israel sobre o casal desemboca naquilo que expressam os dois primeiros capítulos do Livro do Gênesis.  Tomando o antiquíssimo relato de Gênesis 2,18-25, escritos cerca do ano 1000 a.C., o último redactor deste livro descreve com uma linguagem cheia de imagens, cerca do ano 500 a.C., a criação do primeiro casal.

Modelado em barro, o primeiro homem recebe de Deus o sopro de vida.  Considerando que não é bom que o homem esteja só, o Senhor decide dar-lhe uma auxiliar que seja semelhante a ele.  Tira uma costela de Adão para com ela criar Eva, a sua mulher.  Com alegria, Adão reconhece-a como ossos dos seus ossos e carne da sua carne.  O autor do relato bíblico conclui:  Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher, e os dois serão uma só carne.

Este relato simbólico sublinha a igual dignidade do homem e da mulher.  Faz também realçar o fato de que cada um dos esposos não se realiza, não chega à sua plenitude senão no encontro com o outro, escolhido com exclusão de todos os outros.  Para isso, é preciso deixar pai e mãe.  Deus abre o casal ao futuro, convidando-o ao amor, convidando-o a não se fechar em si mesmo mas a abrir-se à vida pelo acolhimento e pela educação dos filhos, pela organização do mundo e da sociedade:sede fecundos, crescei e multiplicai-vos enchei e dominai a terra.

O homem e a mulher são chamados a tornarem-se cada vez mais pessoas, a viverem um para o outro e os dois para os filhos e para a sociedade.

O matrimônio, reflexo do amor de Deus pelo seu povo

A reflexão e a experiência espiritual de Israel vão fazer com que tome consciência de que o amor que Deus tem pelo seu povo é o modelo do amor humano.

O Senhor ama Israel de forma gratuita:  é assim que o homem e a mulher devem amar-se.  Deus ama Israel apesar da sua infidelidade – o povo de Deus tinha escolhido outros deuses e praticava a injustiça social, opondo-se assim à Lei dada pelo Senhor a Moisés.  Deus perdoa ao seu povo as suas infidelidades, manifesta-Se como um Deus cujo amor é gratuito e fiel, cuja misericórdia quer ultrapassar todas as decepções causadas pelo seu povo e tentar suscitar neste uma resposta de amor.

É esta a mensagem dos profetas Oseias, Jeremias e Ezequiel.  O que é revelado da atitude de Deus para com o seu povo é o ideal que é proposto ao casal na sua vida concreta.

Jesus e o casamento

Entre aqueles que seguem Jesus pelos caminhos da Palestina, encontram-se discípulos que, aderindo à sua mensagem, continuam a viver uma vida normal.  Cristo vai chamá-los a viver de uma maneira nova a sua existência quotidiana.

Numa época em que o divórcio era ainda admitido pela Lei de Moisés, Jesus indica que é preciso ultrapassar esse estádio e voltar ao projeto inicial de Deus, expresso nos primeiros capítulos do Génesis:«Devido à dureza do vosso coração é que ele [Moisés] vos deixou esse preceito [do divórcio].  Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher.  Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só.  Portanto, já não são dois, mas um só.  Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem» (Mc 10,5-15).

Através do casamento, os esposos apoiam-se um ao outro no amor e na ternura.  Isto durante toda a sua vida.  Este compromisso é irrevogável.  Vai buscar a sua força a Deus, que se compromete para com os esposos pelo sacramento do Matrimônio, sacramento que lhes possibilita ser fiéis, progredir no amor e no que é necessário para a educação humana e cristã dos filhos. 

Prosseguindo a sua reflexão, S. Paulo, na Carta aos Efésios, no capítulo 5, convidará os maridos a amar a sua mulher como Cristo amou a Igreja, a ponto de dar a sua vida por ela na cruz.  No amor do casal, deve poder-se reconhecer o amor gratuito do Senhor que amou até se sacrificar e dar a vida.  É isto que os esposos cristãos são chamados a viver ao longo do tempo, nos pequenos e grandes acontecimentos da sua vida. 

Philippe Beitia
Ancien Conseiller Spirituel de l’Equipe Responsable France-Luxembourg-Suisse